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xarope para tosse (24 anos)

Quando eu decidi que finalmente escreveria esse blog, para registrar minhas impressões de cada leitura antes de reler aos 36 anos, eu me empolguei e já comecei a puxar coisas da memória. Vieram à minha cabeça pensamentos como "enxerguei fulano só na última leitura", "promontório", "meu Deus, a vergonha que senti com tal cena quando eu tinha 18 anos".

Mas nada que veio espontaneamente à minha memória se referia à leitura dos 24 anos. A única coisa que consegui lembrar foi: "tradução ruim". Nem uma opinião sobre o enredo, sobre personagens, sobre nada. Apenas o veredito final de "tradução ruim, na próxima, se eu for capaz, lerei em inglês".

Deixei a questão de lado por um momento e comecei, de fato, a escrever. Então, as coisas foram voltando à minha mente: eu estava em um contexto pessoal absolutamente caótico quando eu tinha 24 anos. Reli esse livro em meio a tanta dor que basicamente apaguei as impressões da leitura da minha memória. Sorte que eu tinha um diário na época, então agora consigo retomar algumas coisas. Sorte também que tive uma longa (e tensa) troca de e-mails com uma pessoa, e nessa troca de e-mails eu falei um pouco sobre esse período e sobre esse livro. Agora volto lá para relembrar algumas coisas (não são muitas, numericamente falando, mas são profundas e complexas).

Então, o relato dos 24 anos será escrito em duas versões. Uma breve, sem entrar em questões que foram dolorosas para mim na época, e uma longa, em que tento reconstruir minhas impressões sobre o livro (na realidade sobre um personagem) enquanto falo de coisas que podem ser gatilhos para outras pessoas.




Comecemos com a versão breve.

Eu estava terminando as aulas do meu curso de Letras, então me sentia uma tradutora muito competente. Li o livro julgando a tradução, e o veredito foi: tradução ruim. O sentimento era de que eu poderia ter feito melhor.

E consigo pensar em apenas um personagem que me marcou nessa releitura: Lancelote. Ao fim dessa releitura, eu dei a ele um diagnóstico que juntava todos os pedacinhos que me confundiam há anos em tudo que dizia respeito a ele: depressão.

Ao fim da leitura, comecei a pesquisar efetivamente sobre magia e bruxaria, sobre Wicca, sobre Bruxaria Ancestral, sobre New Age, sobre "Celtas", sobre paganismo e neopaganismo.

E aqui termina o relato breve. Se quiser ler o relato longo, é só continuar aqui. Ou você pode ir direto para o relato dos 30 anos.




E vamos para a versão longa.

[Aviso de gatilho: depressão e ideação suicida]

A quarta leitura desse livro foi feita em 2011 ou 2012, mais provavelmente em 2012. Pelo tempo de duração do meu curso de Letras, eu já deveria ter me formado nesse período, porém passei por algumas reprovações e isso me fez durar um ano a mais na faculdade. As reprovações aconteceram em momentos de piora da depressão - que melhorava um pouco e, em seguida, piorava bastante, para melhorar um pouco de novo e piorar tudo e mais um pouco em seguida. Essa montanha-russa durou longos anos. Também não me formei: a depressão estava com força total quando finalizei as aulas que eu tinha que assistir, e no momento em que tudo que eu precisava era levar os certificados de horas complementares e fazer as muitas horas complementares faltantes, eu desisti. Desisti não só da faculdade: desisti de mim, desisti de viver.

Eu não tinha motivos para continuar vivendo. Sentia um vazio horrendo, eu me descrevia como sendo oca. Trabalhar era chato, estar em casa era um pesadelo, a maior parte da minha motivação para ir para a casa do meu então namorado era não estar dentro da minha casa. Eu não suportava minha própria cabeça, meus próprios pensamentos. Tudo o que eu via era dor e desespero e inutilidade.

Eu quis morrer, e não falo isso de forma exagerada. Eu não tinha o que fazer comigo mesma mais. Escolhi método para o suicídio, escolhi local. Um dos primeiros locais que considerei foi dentro do banheiro da faculdade, mas enquanto eu pesquisava, mudei o método e o local. Mas eu sentia, ao mesmo tempo, uma culpa imensa, porque se eu de fato me matasse, deixaria triste quem eu julgava que não merecia ficar triste. Acabei criando, mais uma vez sem exagero, ódio pela pessoa que "me prendia" aqui.

Eu disse ali em cima que estava me sentindo uma ótima tradutora, e por mais que soe contraditório, eu estava sim, mesmo com a cabeça derretida por depressão. Eu tinha certeza de que naquele momento eu sabia tudo o que fosse importante saber sobre textos e sobre literatura e sobre traduções. E eu me apeguei muito às coisas que eu sabia, como algo que hoje me parece uma tentativa meio desesperada de encontrar algum valor em mim mesma.

Em algum momento, após completados os 24 anos, eu percebi que tinha chegado o momento que prometi a mim mesma aos 19. O momento do qual já falei no primeiro post desse blog, quando percebi que tinha lido As Brumas a cada 6 anos, em idades múltiplas de 6. O momento tinha chegado.

Mas para quê? Para quê manter uma tradição que, na verdade, surgiu de forma aleatória? Ok que ter sido tão regular, tão certinho, e sem intenção de ser assim regular, era exatamente o que fazia ser muito legal a proposta. Mas para quê? Se viver já era vazio de sentido, por que mesmo eu releria um livro que já tinha lido 3 vezes?

Pensei em não reler, porque a proposta foi feita em um momento idiota de otimismo, em uma época que, mesmo relativamente tristonha demais para o contexto que eu vivia (aos 19 eu não sabia que já estava cultivando sementinhas da depressão), eu ainda conseguia olhar para anos futuros e desejar e planejar coisas que aconteceriam lá. Aos 19, eu fui capaz de me imaginar com 24, 30, 36, 42... Mas com 24, eu não conseguia me imaginar nem com 25. Aliás, como mesmo eu tinha chegado até ali?

Eu sentia que minha vida tinha terminado. Sentia que minha vida real, com vontade, com energia, com vida, tinha acabado na realidade quando terminei o ensino médio, e que dali em diante eu fui só esmorecendo cada dia mais. Vivendo por viver, sem propósito. Tentando inventar novos motivos para me manter biologicamente viva, mesmo que a única coisa que eu tivesse vontade, de verdade, era morrer. E eu precisava inventar esses novos motivos, já que eu "não podia" fazer a única coisa que eu queria para não deixar uma pessoa triste.

Buscar coisas para fazer para ocupar minimamente minha existência infeliz tinha uma vibe meio da música "Cough Syrup", de Young the Giant (que, inclusive, foi citada nos meus diários como uma música capaz de traduzir o que eu sentia então). Eram xaropes para tosse, que disfarçam os sintomas, mas nunca, nunquinha, jamais, curam a doença que causa a tosse. Minha dor jamais se resolveria, eu já tinha tentado de tudo. Mas eu me distraía com o que dava, quando dava, se dava.

E foi nessa mentalidade que, por fim, eu decidi finalmente que releria sim As Brumas de Avalon. A releitura seria mais uma colherzinha de xarope para tosse, para fazer doer um pouco menos, sem resolver nada realmente, enquanto a leitura durasse. Pelo menos, vendo séries e lendo livros eu tinha alguns minutos focada em vidas que não eram a minha.

Como eu já disse, tenho poucas lembranças sobre minhas opiniões dessa leitura. Não sei o que pensei da Morgana, não sei a quantas andava minha opinião sobre a traição da Igraine, não sei quanta mágoa ainda guardei da Viviane. Não sei o quão mais profunda se tornou minha compreensão sobre o aspecto político do livro.

O que eu sei é que foi a primeira vez que Lancelote me passou uma impressão diferente de "chato" ou de "confuso". Ele não é confuso, ele simplesmente não sabe o que fazer com ele mesmo. Por isso, a lealdade dele oscila, e está sempre aberta a questionamentos e reflexões. Ele está tentando dar um sentido para a vida dele, mas isso nunca é possível. Ele está sempre perturbado e dividido. A constante na vida dele é a dúvida, e não no sentido intelectual e filosófico de sempre questionar tudo. Assim como eu, Lancelote inventa o que fazer com ele mesmo enquanto vai sobrevivendo. Lancelote tem, sim, motivos para ser triste (vide leitura dos 12 anos): ele é vazio como eu, oco por dentro. Ele resmunga porque tudo dói. Eu não era mais sólida e coerente, era "esfarelada" (vide leitura dos 18 anos) a essas alturas. Como ele. Não temos motivações, somos vazios, indefinidos e sem rumo.

No meio de tanta angústia, não é surpresa que eu tenha achado Lancelote chato nas outras vezes.

Sobre o texto em si: encontrei vários absurdos de tradução no livro e entrei na determinação de que, se eu chegasse aos 30 anos e fosse reler mais uma vez (altamente improvável estar viva até lá), eu o faria em inglês, para conhecer o verdadeiro texto. Se eu fosse capaz de ler bem em inglês até lá.

Ao fim desta leitura, eu tive a certeza de que deveria buscar fosse o que fosse que se assemelhasse à antiga religião da Deusa, e fui para a internet procurar.

Mariana fala...




Eu pensei que não teria adendos à leitura dos 18 anos, mas ledo engano: aqui estou eu.

Enquanto escrevo o relato dos 24, me lembro de mais uma impressão forte da leitura dos 18: a relação entre Raven e Morgana.

Eu não me lembro de impressões sobre Raven na leitura dos 12 anos. Na leitura dos 6 anos, não cheguei na parte em que ela aparece.

Mas lembro de achar bizarro demais, com 18 anos, o fato de parecer que Morgana e Raven se pegaram.

Porque assim, pareceu, em certo momento, que elas... transaram... uma vez?

Foi isso mesmo? Duas mulheres? A Raven, com o voto de silêncio, com aquela aura misteriosa. Elas realmente, real mesmo, se pegaram?? E a Raven era bem mais velha que a Morgana, né? Bizarro uma pessoa velha e uma nova fazendo sexo. 

(E agora já não me lembro com clareza a diferença de idade entre elas, mas ouso dizer que era algo em torno de 15 anos, e, além disso, nesse momento Morgana já não era jovenzinha, talvez tivesse algo como uns 30 anos? Seja como for, hoje eu enxergo que eram duas adultas capazes de decidir sobre fazer sexo, e que meu ssto com a diferença de idade aconteceu muito mais

É, pareceu que elas se pegaram, definitivamente. Mas meio que achei estranho demais pra eu realmente acreditar que tivesse uma cena de duas mulheres se pegando em um livro.

Hoje eu atribuo esse susto tão grande a um momento gay panic kkkkk. Nessa época eu ainda não reconhecia em mim a atração por pessoas que não fossem homens, mesmo que eu já tivesse sim me atraído e me apaixonado por meninas mais de uma vez. Mas eu ainda via como errado, como imoral, como algo absolutamente impensável para minha vida, algo que existia no mundo, mas deveria permanecer nas sombras do não-dito. 

E de repente tem uma cena no livro que estou lendo que mostra duas mulheres transando porque sim, porque elas tinham carinho imenso uma pela outra e naquele momento transar fez sentido para elas. Sem culpa, sem julgamento moral, sem alarde, sem repercussões. Não há repercussões negativas no livro, e não há julgamento na narração. Penso agora que a naturalidade da cena me gerou conflito com minha própria negação de mim mesma.

Oi, hello

 Testando e etc

um livro bobinho e fútil? (18 anos)

 


Eu era adolescente quando percebi minha mãe e minha tia L. voltarem a comentar sobre As Brumas. O foco então era a comparação entre filme e livro. Eu não lembro dos comentários em si delas, mas ao ver que elas comentavam, resolvi reler. Afinal, quando eu li eu era criança, e agora eu era adulta, e entendia tudo muito melhor.

Lembro de levar o livro para a escola, e ler lá durante intervalos, aulas escapolidas de Educação Física, e de ler dentro do ônibus.

[Lembro também que quando terminei de ler, em seguida li O Mundo de Sofia, e um dia um menino da minha sala por quem eu tinha um super crush se aproximou de mim enquanto eu estava sozinha no Bosque (apelido de uma espécie de pracinha dentro da escola) e veio comentar sobre o Mundo de Sofia. Que a irmã dele conheceu o autor, se não me engano. E que ele não imaginava que eu lia livros como O Mundo de Sofia, já que tinha me visto com As Brumas um tempo antes e por isso pensou que eu era bobinha e fútil.

Eu passei alguns anos me perguntando se As Brumas realmente era bobinho e fútil, sendo que era tão complexo e significativo para mim naquele momento. Hoje eu entendo que não seja uma literatura considerada Literatura, com L maiúsculo, mas também entendo que o motivo principal para o descarte é porque é um romance contado por uma mulher do ponto de vista quase sempre de personagens mulheres, e misoginia impede que visão feminina seja considerada importante. Enfim, aqui eu sei que estou jogando julgamentos para além dos 18 anos, por isso o colchete. O foco é: passei um período pós leitura dos 18 questionando se o crush, tão inteligente e lindo, não poderia estar com a razão.]

A primeira grande diferença foi que descobri que existe política no livro. Toda aquela parte sem graça e confusa sobre Uther, páginas e páginas de discussões sobre quem deveria ser o próximo líder depois de Ambrósio Aureliano era política. As conversas sobre reino entre Morgause e Lot, muito do que era dito por Taliesin, e motivações por trás de decisões de Viviane e de Arthur, tudo era política. Permaneci achando essas partes bem chatas, umas mais do que as outras, e ainda bastante confusas, mas fiquei bem impressionada com toda uma dimensão nova que eu simplesmente não enxerguei na leitura anterior.

Então existia um motivo maior para o casamento de Igraine com o Gorlois. E para ela ter sido incentivada pela irmã Viviane e pelo Merlim a trair o maridão com o Uther. Mas não era sobre amor a traição?

Quando Igraine transa com Uther pela primeira vez, eu senti uma vergonha imensa por minha mãe saber que eu já tinha lido uma cena de sexo na minha vida. Mas aparentemente ficou tudo bem, né? Eu só senti muita muita muita vergonha por isso ao perceber que tinha ali uma cena de sexo, e que estava subentendido que se eu li o livro, eu li a cena anos atrás. E que minha mãe sabia.

E a cena me pareceu um pouco estranha. Igraine não parece muito entusiasmada, então Uther questiona o receio dela, e questiona o fato de Gorlois nunca ter "tocado" Igraine com gentileza. E aí Uther aparentemente "toca" (a que exatamente estamos nos referindo aqui?!?!) Igraine com gentileza, e por isso ela se torna uma mãe negligente. (???????)

Primeiro ponto: mas Gorlois não era um homem bom? Um bom marido? Como assim algo que ele fizesse poderia ser desagradável?

Segundo ponto: beleza, Igraine estava apaixonada, estava sentindo prazer, mas isso ainda não justificava ela deixar o filho bebê sob os cuidados da filha criança dela. Os filhos deveriam ser a coisa mais importante da vida dela. Afinal, ela era mãe! 

Então em resumo: explicou, mas não justificou. Entendi que Igraine não abandonou os filhos do nada, mas julguei sim os motivos dela para fazer isso. No fim das contas, ela era casada, e Gorlois era um marido majoritariamente bom.

Viviane surge então como uma tia muito legal. E, ao contrário de Igraine, ela respeita Morgana, é carinhosa com ela. E leva ela embora para Avalon.

Eu senti um certo alívio com a intervenção da Viviane, afinal, com Igraine, Morgana não era vista e ouvida. Mas em seguida eu entendi por que eu tinha tido a impressão de Viviane ser meio má: ela é extremamente rígida com Morgana.

Morgana passa por todo um treinamento e preparação de anos, e Viviane sempre está por perto de alguma forma, mas ainda falta alguma coisa, e essa falta é importante nessa leitura, foi uma impressão forte que eu tive. Eu não tinha nessa época o vocabulário para expressar o que faltava, mas hoje eu digo que minha impressão na época foi que Morgana, enquanto crescia, nunca foi acolhida e cuidada por ninguém, nem por Igraine, nem por Viviane. 

Uma coisa que me surpreendeu muito n'As Brumas quando Morgana se encontra com Lancelote foi o lance de ela ser virgem aos 18 anos, se não me engano. Isso me incomodou porque sendo uma história que se passa antes do período medieval, a virgindade da Morgana ser mantida até ali me pareceu uma descaracterização em relação à História. Mas foi um incômodo pequeno.

Eu definitivamente não tinha guardado na minha cabeça que Morgana e Lancelote quase transam, que foi naquele momento ali que surgiu a paixão dela por ele. E eu também não lembrava que momentos depois seria a primeira aparição de Gwenhwyfar no livro.

Eu odiei a Gwenhwyfar. Ela sussurrando com Lancelote, excluindo Morgana, tão frágil e quebrável e delicada, e tratando Morgana como inferior. E ele, um idiota, todo babão pela mocinha tão frágil. Eu me senti pessoalmente traída pelo Lancelote. "Pequena e feia como a gente das fadas", disse Gwenhwyfar sobre Morgana. E nessa altura dessa leitura, eu não entendi como fui capaz de ter empatia por Gwen na leitura anterior.

Eu lembro de ficar muito impressionada com a corrida de Artur pela floresta, com o fato de ele correr pelado e pintado, ao invés de vestido. E morri de vergonha com ele e Morgana se pegando, mas ao mesmo tempo eu achei a cena bonita, e fez muito sentido na minha cabeça. Mesmo que tenha acrescentando mais uma camada de crueldade a Viviane, para mim.

Então Morgana se rebela, e eu quase entendo a rebeldia dela, mas ainda acho que ela foi burra. Fugir, dar chilique, pensar em abortar - até aí tudo bem. Ela realmente ir embora me ofendeu muito.

Morgause ainda era quase um sinônimo da minha tia L quando comecei a leitura. Então achei incômodo Morgause fazer coisas que poderiam ferir a imagem de perfeição que eu tinha dela. Ao começo do livro, quando ela arrasta asa para Gorlois, eu achei feio, mas acho que meio que arquivei o problema em um canto da minha cabeça. Quando Morgana está parindo seu bebê, eu fiquei realmente incrédula com a atitude de Morgause. Ela estava bem intencionada de verdade, não é mesmo?? Ela não faria algo contra Morgana em plena consciência. Estranho, incômodo. Mas ela ainda era maravilhosa pra mim. Neguei os defeitos na versão final do meu julgamento sobre Morgause.

Eu percebi que Kevin é importante demais para a história. Ele é um traidor de Avalon? Sim. Filho da puta, ele. E feio. Me incomodou Morgana ficar com ele por um tempo, por ele ser feio e torto, mas eu podia concordar que ele era muito interessante. Mereceu o fim que teve, apesar de que achei exagerado Nimue se matar depois de fazer o feitiço. Julguei Nimue como fraca, pois ela não deveria ter se envolvido tanto, ainda mais com um homem feio e torto e deficiente daqueles.

Artur pra mim continuou sendo um bobão genérico. Lancelote continuou confuso para mim. Gwenhwyfar continuou me provocando admiração e antipatia.

Eu percebi de fato a busca pelo Santo Graal, percebi a batalha contra o monstro do lago Ness, e essas partes me entediaram bem. E elas aumentaram minha confusão com Lancelote (porque bordados mágicos e bainha de espada enfeitiçada tudo bem pra mim, mas monstro do lago já era fantasioso demais): pra mim ele era meio "esfarelado", ao invés de ser sólido e coerente. Todos os personagens tem motivos, tem condutas sólidas com eles mesmos. Lancelote me parecia muito solto, difícil de definir, incoerente talvez. Amor a Gwen ou lealdade a Artur? Ver sentido em Avalon, ou seguir o cristianismo? Família ou o Graal? No fim das contas, continuei achando ele chato.

Minha lembrança dessa leitura tem poucos outros destaques. Mantive muitas das minhas opiniões além dessas que já descrevi. Novamente dei moral pra tentativa da Morgana de salvar Avalon se unindo a Avaloch. Novamente fiquei sentida com a passividade dela no fim de tudo, quando Avalon se perdeu nas brumas. De novo achei que ela foi burra e teimosa, e eu quis novamente que Avalon tivesse vencido na vida real, de alguma forma.

E, voltando a pensar na questão "o que pode uma virgem saber sobre as mágoas e labutas da humanidade?", eu voltei a concluir que essa frase é bobagem, que não é como se sexo fosse assim tão determinante para a capacidade de compreensão de mundo de alguém.

Terminei a leitura, vi o filme, me choquei porque Kevin simplesmente não aparece no filme, e segui minha vida bem satisfeita por ter finalmente entendido o livro de verdade.

Mariana fala... de novo


Precisei voltar e fazer mais alguns adendos sobre a leitura dos 12 anos. E renomeei as ponderações para "Mariana fala...", pra manter o clima :)

Eu já escrevia historinhas ficcionais. Lembro de escrever e ilustrar uma historinha altamente baseada (cof cof plágio cof cof) em uma música da Xuxa que falava sobre um namoro entre o sol e a lua. Eu era bem novinha, não tenho muita precisão de data, mas pelo lugar em que eu lembro de estar desenhando, imagino que eu tinha de 6 a 8 anos quando escrevi. Escrevi também outras coisas também além dessa.

Mas depois da leitura d'As Brumas e de ter um computador, ali pelos 13 ou 14, lembro de ter escrito duas histórias em que me inspirei muito na escrita da Marion. Pelo menos em termos de formatação, eu segui fielmente: pensamentos em itálico, estilo de fonte parecida com a do livro. E tentei reproduzir clima, ambientação, narrativa. Tentei reproduzir vocabulário também.

(Ainda tenho essas histórias. E, não, relendo poucos anos depois eu já vi que eu não tinha escrito nada do que eu achava que estava escrevendo kkkkkk)

Mas o foco aqui é que eu tentei, e tentei porque As Brumas era o livro mais impressionante que eu já tinha lido. Era uma referência que eu tinha de "livro de verdade", "livro de adulto", era algo que eu precisava aprender a reproduzir se eu quisesse escrever.

Um outro adendo, que só me veio à mente quando comecei a escrever o relato dos 18 anos, é que eu não faço a menor ideia das minhas impressões sobre as cenas de sexo do livro durante a leitura dos 12 anos, com exceção do já citado menáge.

Eu consigo me lembrar de ter lido. Eu não esqueci que li. E eu não pulei partes do livro. Mas não consigo mais acessar opiniões daquela época sobre isso. Provavelmente a psicanálise tem uma explicação para eu ter recalcado essas lembranças, penso eu agora hahahahhah

(E depois de escrever isso aqui, já levei pra discutir com a psicóloga porque agora sou dessas kkkkkk)


Mariana fala...




Ponderações sobre a segunda leitura

Terminei agora de editar e postar sobre a leitura dos 12 anos, e quis comentar algumas coisas, mas elas são tão tão tão baseadas em impressões de agora, que não consegui colocar no texto sobre a leitura em si.

A primeira coisa que se destacou para mim enquanto eu escrevia o relato dos 12 anos é o quanto eu tinha uma visão extremamente rígida sobre estrutura narrativa. Minha visão da Gwenhwyfar e da Morgana eram absolutamente dicotômicas porque não é possível encaixar as duas em posições pré determinadas de vilã e de mocinha. Essa não é a relação delas, mas era o que eu buscava naquela leitura: entender quem era do bem e quem era do mal.

Interessante eu notar isso agora, porque coloca uma perspectiva que hoje em admiro nas obras que consumo: personagens com profundidade e contradições. Ponto para a autora.

Um outro comentário, que só é possível quando eu coloco minhas impressões em perspectiva é sobre minha religiosidade. Aos 14 anos me tornei ateia. Em algum momento no meio da adolescência, me tornei agnóstica. Anos mais tarde, ainda agnóstica, comecei a estudar magia e praticar neopaganismo. Hoje eu volto a me considerar agnóstica, mas definitivamente acredito em magia.

Com isso, eu quero chegar no seguinte: eu acredito que essa leitura d'As Brumas me plantou uma sementinha de curiosidade sobre o que poderia existir para além do ambiente cristão em que fui criada.

Esse, aliás, é um vilão nítido do livro: o cristianismo (não os cristãos, a narrativa não condena pessoas cristãs, de forma alguma, e sim o cristianismo e seus princípios). Eu era muito beatinha, muito criada dentro do catolicismo, e mesmo que eu já tivesse vários questionamentos internos, eu era uma "boa menina": obedecia e não verbalizava minhas questões.

A leitura desse livro expandiu os meus questionamentos, mesmo com a resposta desencorajadora da minha mãe. Ela disse que não existia mais, mas, bem, não existir mais quer dizer que já existiu, então imagina que legal se...?




Edit 28/01/2024

Mudei o título das ponderações para "Mariana Fala..."

cada homem com sua verdade, e deus com ela (12 anos)

Comecei lendo o prólogo.

"Morgana fala..."

Talvez ainda hoje, 2023, esse seja o prólogo que mais me impressionou na vida, mas não tenho certeza sobre isso. Aos 12 anos, com certeza foi o mais impressionante da minha vida de leitora. Enxerguei Morgana imensa, sábia, poderosa e misteriosa. Não entendi bem de cara, mas reli muitas e muitas vezes. Considerei um crime eu ter pulado o prólogo na tentativa de leitura anterior. Ah, crianças. 

(Aqui preciso fazer um parênteses, claramente usando o julgamento de agora para interpretar as minhas memórias de tantos anos atrás. Neste momento, aos 12 anos, eu não considerava que já tinha lido o livro. Considerava que tinha tentado ler, mas era nova demais para conseguir. Foi só depois da atividade do curso de Letras que eu passei a considerar que foi uma leitura, porque aprendi que o sentido é dado pelo leitor, e não pelo texto, e ele é totalmente baseado no que o leitor tem de conhecimentos prévios à leitura do texto. Ou seja, com 6 anos foi uma leitura sim, com o que eu tinha de conhecimento prévio - e de desenvolvimento neurológico, conceito que vim a adquirir nos últimos 2 ou 3 anos. Então foi sim uma experiência de leitura. Mas, com 12 anos, eu não pensava assim.)

Vi muitas partes chatas no livro. Não consegui acompanhar nada da parte de como Uther se tornou tão importante. Aceitei que ele era importante, que tinha alguma coisa sobre batalhas e sobre coisas chatas, reuniões, diálogos cansativos e confusos. A parte importante para mim era que Igraine (já comecei sabendo que era o nome de uma mulher) estava traindo o marido dela. Audaz, né, um livro que mostra o romance de uma mulher com seu amante. E ela tinha uma filhinha pequena.

Eu não gostei da Igraine. Gorlois era bom para ela. Em uma época em que ele tinha o direito de descartar filhas meninas, ele deixou ela ficar com Morgana. E aí Igraine traiu ele? Eu não gostei. Achei injusto, errado.

E aí Gorlois morre de uma forma muito horrível, tadinho. E ao invés de a Igraine guardar o luto pelo bondoso marido, ela casou com o amante. Para piorar, ela era uma mãe negligente na presença do Uther. Eu tive muita mágoa da Igraine. Muita mesmo.

Tem um outro "Morgana fala...", em que Morgana narra que ela tinha algo em torno de 11 anos, Artur tinha algo em torno de 1 ou 2, não me lembro. Uther chega, Igraine corre para receber o marido, Artur cai e machuca o queixo, e Morgana não apenas cuida da criança quanto toma um xingo de Igraine, porque Morgana deveria cuidar do irmão.

Eu pensei em mim e nos meus primos. Morgana tinha uma idade próxima na minha, eu me imaginei sendo obrigada a cuidar como se fosse meu filho de um dos meus primos menores, como Morgana cuidou de Artur. Aquilo não era justo. Igraine trocou os filhos por um homem, e eu considerei isso absolutamente imperdoável.

Só lá para o fim da vida da Igraine, alguns volumes do livro a frente, eu comecei a perdoar ela. Mas sempre com um ranço e uma mágoa residuais.

Não entendi muito bem o papel da Morgause no parto da Morgana. Fiquei meio triste e chateada, mas ela estava fazendo o melhor pela Morgana e pelo bebê, certo?

Artur era um príncipe e um rei e um herói, eu não tive grandes impressões sobre ele. Meio tolo, mas é isso.

Viviane era um mistério para mim. Meio má, meio cruel, mas muito inteligente, e bondosa às vezes. Eu me sentia intimidada por ela.

Kevin, Niniane, Nimue foram mais importantes em uma parte que não entendi muito bem e achei um pouco chata.

Lancelote me confundiu. Ele me parecia triste demais sem motivo nenhum. Lindo, maravilhoso, e como Morgana desejou muito ele, eu acreditava que ele era muito lindo e atraente. Mas, honestamente, eu achava ele meio resmungão e um pouco chato. 

Eu odiei Gwenhwyfar, ao mesmo tempo que entendi muito ela. Eu me identifiquei demais com o medo dela do céu aberto, como eu sempre tive medo de paredes cegas. As descrições dela sobre o céu traduziram meu incômodo com muros grandes e cegos. Eu entendia ela, os objetivos dela, as decisões dela. Mas odiei ela porque ela era a personificação dos inimigos de Avalon. Eu não podia torcer para ela, porque ela era vilã, certo? Mas ela não era má. Confuso e contraditório. Eu obviamente escolheria Morgana ao invés de escolher ela a qualquer momento. Mas algumas partes minhas concordavam com ela, e isso me deixava confusa. Eu quis que ela "virasse" para o lado da Morgana e de Avalon, assim eu poderia gostar dela em paz.

Morgana me afetou em pontos demais, muitos deles eu senti lá nos meus 12 anos, mas eu não tinha vocabulário para explicar.

Ela era a heroína, o livro era sobre ela, então como que ela podia fazer tantas coisas burras? Viviane ensinou ela certinho, ela fez pirraça. Era só obeceder que teria dado certo, sabe? Mas ao mesmo tempo, com o passar dos anos, ela começou a ver os problemas dos atos anteriores e veio tentar resolver. Então por que ela não fez certo de cara? Não era como se ela não soubesse o que fazer. E eu acreditei que ela salvaria Avalon, mas as coisas já não estava realmente nas mãos dela, e me frustrei com isso. Como que a heroína podia fazer tanta bobagem e colocar tudo a perder?

Achei imoral ela se envolver com Avaloch, mas se fosse pra salvar Avalon, tudo bem. Mas nem conseguiu salvar. Ou seja: mais um vacilo dela.

E, ao fim, ela estava tão plena e tão conformada com a morte do Artur, com Avalon se perdendo nas brumas. Ela fez as pazes com o convento, foi viver lá. A tranquilidade com que ela termina o livro, tendo sido derrotada em tudo que ela fez a vida inteira, me deixou muito inconformada. Era pra ter sido tudo diferente. Se ao menos ela não tivesse sido tão rebelde e teimosa. E eu também esperava que o fim dela fosse sofrido, já que ela "perdeu".

Terminei o livro inquieta. Perguntei pra minha mãe se ainda existia a religião da Deusa. Eu queria que Avalon tivesse vencido, de alguma forma. Minha mãe respondeu algo nas linhas de "existem cultos ridículos na Europa, mas não têm nada a ver com o que está descrito no livro". Fiquei chateada, mas okay.

De uma forma geral, lembro que comentei várias coisas com a minha mãe sobre o livro, enquanto eu lia. Lembro de ela ficar admirada com minha compreensão sobre o livro, e falar nisso com alguém, talvez com minha tia.

Lembro também de minha outra tia, C, ao saber que eu estava lendo As Brumas (ou que eu já tinha lido), comentar comigo sobre o trecho "Mas o que pode uma virgem saber das mágoas e labutas da humanidade?". Tia C repetiu esse trecho e complementou "Tadinha, né, como uma virgem vai saber?? Ela não sabe de nada!"

Algumas coisas foram notadas a partir daí: eu não sabia que a tia C também tinha lido; e eu discordei demais, porém em silêncio, dessa afirmação dela. Eu estava muito convicta de que fazer ou não sexo não tinha nada a ver com percepções de mundo. Eu era um exemplo: virgem e muito sabida sobre muitas coisas.

Fiquei confusa e meio sem graça com a cena de Arthur, Gwen e Lancelote, e depois soube pela minha mãe que minha avó parou de ler naquela cena porque achou imoral.

Eu vi Morgause como minha tia L, a tia que gostava muito desse livro. Poderosa, dona de si, tão dona do próprio castelo quanto o marido dela. Eu olhava para meus tios e tias, e via que existia uma hierarquia ali nos casamentos deles. Eu não tinha vocabulário para isso na época, essa é mais uma interpretação dos 36 anos sobre os 12 anos. Mas era isso que eu via: uma dinâmica de poder dos maridos e de subserviência das esposas. Mas não era assim com a tia L. 

Ela era dona de casa, sim, e Morgause também era. Morgause era rainha e tinha que gerenciar as coisas do castelo, como orientar cozinheiras, gerenciar as moças do castelo, pensar na carne e nos grãos e etc. Mas (mais uma palavra que adquiri com os anos, aos 12 anos eu não tinha esse vocabulário) Morgause tinha poder político, e discutia como igual com o marido dela. Eu via isso na minha tia L. A casa dela era o castelo dela. Nenhuma das duas se rebaixava, jamais. E ainda tinha o fato de as duas terem cabelos vermelhos. Pra mim elas eram quase sinônimas.

Dentro da minha cabeça, eu chamava um menino da minha sala, de quem eu gostava, de Uther, porque ele era loiro e ossudo e grande, e se parecia muito com o que eu imaginava para Uther. Não lembro mais o nome do menino.

Em resumo, o fato é que esse livro ocupou um lugar imenso na minha cabeça. Nos anos seguintes, reli trechos, falei sobre o livro, postei sobre ele em um blog. Quando ganhei um computador aos 13 anos, digitei o prólogo e relia de tempos em tempos. Foi uma leitura muito satisfatória e agradável.

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